quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Vaca Leiteira e Beijo na Testa

Heitor me acordou hoje às sete da manhã. Meu marido já estava no banho e eu não conseguia abrir os olhos. Mas filho não entende as súplicas de "só mais 5 minutinhos!!".  Levantei e fui ao seu resgaste, ele havia descido da cama e esperava, impacientemente, atrás da porta do quarto.

Nem os beijos, abraços, mordidas e apertões de bom dia conseguiram me despertar. Quando o Paulo apareceu na sala, não pensei duas vezes, avisei que iria voltar pra cama e antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, ele me disse solene: Você precisa ir no Dr. João ver que canseira é esta?
Cansada mas bem humorada perguntei que raios o meu ginecologista poderia fazer?
Te dar uma vitamina, sei-lá? Foi a resposta.
Lembrei-me do primeiro mês de vida do Murilo. Quando perguntavam do bebê, meu marido sempre respondia que estava tudo ótimo, tranquilo, que não dava trabalho. De fato o Murilo era um dengo, eu que havia me preparado para receber um chorão esgoelante até estranhava a quietude do meu pequenininho.  Mas só boneca não dá trabalho. Não interessa quanto o recém-chegado a este mundo maluco e delicioso é calmo, dorminhoco e teve a sorte de se livrar do terror das cólicas, ele dará muito trabalho, principalmente, quando cai de paraquedas na casa da gente, inaugurando para nós um novo, almejado e assustador título: o de pais. É maravilhoso, gratificante, inebriante mas, dá trabalho.
Murilo acordava três vezes durante a noite para mamar. Cada refeição do meu pequeno levava, em média, uma hora e meia, entre trocas de fonte alimentícia (direito/esquerdo) e posições propícias para o arroto. É quase ultrajante o quanto que a gente fala, espera e se preocupa com este efeito fisiológico só permitido nos primeiros meses de vida.  Desta epopeia óbvia o meu marido não sabia. Eu ficava com o Murilo no quarto dele e meu marido ficava no nosso quarto, se escutava alguma coisa era só um chorinho, às vezes ia até o quarto saber se estava tudo bem. E era só!! Ele não se recusava a ajudar, muito pelo contrário, era super atencioso, participativo, trocava fraldas, não importando o conteúdo delas e até dava banho, obviamente depois que o umbigo caiu.  Mas a noite era minha, embora meu marido estivesse de férias, tiradas especialmente para curtir a cria.
Mesmo sendo verdade que a paz reinava em casa eu me sentia muito incomodada com a fala de que o Murilo não dava trabalho. Se era assim, tão tranquilo, como justificar minha cara acabada, minhas olheiras que chegavam à nuca, minha cabeça latejando e meu raciocínio lento (lerda eu nunca fui!!!)???. Visita é uma delícia, mas é importante para a mãe estar bem, participar da conversa, ter e dar atenção e principalmente se sentir limpa e cheirosa.  Quando se amamenta a necessidade de banho aumenta, pelo menos era assim pra mim, que me via ora como vaca leiteira, ora como caixinha longa vida. Fui percebendo por outras pessoas, nas visitas que eu recebia, que alguma coisa não ia bem.  Uma amiga veio sozinha me visitar e tirou uma foto para mostrar para o marido. Dias depois, me ligou toda feliz dizendo que ele achou o Murilo uma belezinha, mas me achou muito acabada.  Lembro perfeitamente da entonação estendida que ela usou no muuuuuuuuuito acabada, seguida de uma gargalhada esfuziante depois de se dar conta da verdade dolorosa que me contava. De outra amiga eu me despedi agradecendo a “viagem”, percebi o ato falho, mas só tive forças para rir, eu sabia que não era viagem a palavra mas não conseguia saber o que eu tinha que agradecer, minha boca não conseguia pronunciar “visita”.  As duas fofas depois caçoarem bastante de mim, ordenaram: Já pra cama, menina!!!! Ainda bem que ninguém me mandou pro banho,  devia ser coisa só da minha cabeça.
Por falar em banho, a gota d´agua para a minha impaciência com a insistência do meu marido em dizer que estava tudo muito tranquilo, veio quando uma prima do Paulo, que tinha tido filho logo depois de mim, contou que havia contratado uma babá pra passar a noite com o bebê.
“Tá vendo amor, isso é pra você me dar valor, não precisei contratar uma babá!!!" Falei esperando um elogio ou um brilhante enorme que me cegasse de tão agradecido que ele estava pela mulher dedicada e amantíssima com quem ele havia se casado.  Sabendo-se provocado ele respondeu: “Claro que não precisou contratar, você casou comigo, tirei férias para ficar de babá pra vc!!!”
 Meu sangue ferveu. A trilha sonora perfeita para aquele momento era a música da cena do chuveiro de Psicose, só me faltava a faca na mão, eu podia voar no pescoço dele e fazer picadinho, culparia os hormônios depois. Respirei fundo e não disse nada. Mas devo ter feito uma cara péssima.
Quando a noite chegou, resolvi mostrar ao pai o seu “eleitorado”. Pedi (com bastante jeitinho) que ele dormisse no quarto do Murilo e eu dormiria sozinha no nosso. Quando o digníssimo acordasse, o pai trocaria a fralda, me traria o bebê para ser amamentado e esperaria pra fazê-lo arrotar. O Paulo, que nunca fugiu a uma missão que lhe fosse dada, aceitou sem questionar (acredito que mais por não saber o que lhe aguardava que por consciência do dever de pai ou solidariedade de marido).
 A primeira acordada da noite foi até divertida. Murilo nasceu no final de julho de 2008 e as olímpíadas de Pequim vinham sendo companheiras da madrugada, para mim. Ligamos a tv e ficamos assistindo . A segunda já foi mais sofrida, a tv continuava ligada, mas os comentários rarearam. Na terceira vez que o Murilo acordou, o Paulo chegou no quarto sem ele, me chamou e completamente bêbado de sono disse: “É assim toda noite? Como é que você consegue?”
 Beijei-lhe a testa como carta de alforria. Aquela fala era bálsamo para os meus ouvidos. Eu conseguia. À duras penas, com cara acabada e raciocínio lento,  eu conseguia!!! Eu conseguia com muito gosto, prazer, satisfação. Eu conseguia feliz da vida!!! Não era nada tranquilo, não era fácil, dava trabalho mas eu conseguia e adorava conseguir...
Os anos passaram, tivemos outro filho, mas os perrengues noturnos continuam sendo resolvidos por mim. Acho justo, ele tem que trabalhar no dia seguinte e eu posso ficar assistindo Harry Potter com os meninos se o sono faltante da madrugada quiser seu quinhão pela manhã. Não dá pra dormir, mas dá pra descansar.  No entanto quando a gente poupa demais o descanso do outro a reivindicação do nosso próprio descanso pode ser facilmente confundida com falta de vitamina.
Hoje, diante da atitude atenciosa, preocupada mas totalmente descabida e desaforada do meu marido, de me mandar procurar o meu gentil ginecologista, não sei se por sono, benevolência ou  maturidade, não tive vontade de fazê-lo em picadinho. Apenas lhe contei o que ele não sabia porque dormia. Ele olhou em volta, notou a caixinha de remédios remexida em cima da mesa da cozinha, os termômetros em cima do sofá e colocou a mamadeira do Heitor, que já estava pronta, para esquentar.  Foi a vez dele de beijar-me a testa e ir para o quarto dos meninos ver se febre do Murilo tinha voltado.

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