terça-feira, 8 de novembro de 2011

A quase heresia de pensar-se Martha

No auge do meu sentimento megalomaníaco acredito que sou Martha Medeiros, escrevo crônicas, mentais, tão bem quanto ela. Na minha cabeça delirante já vejo meu livro publicado com orelha vindo de Porto Alegre. Claro que o delírio passa logo, sou bipolar. Como as minhas crônicas não foram para o papel não posso relê-las e analisar friamente o meu fiasco literário. Afinal, o que a gente imagina é melhor do que o real nos revela, em tese.
 Logo surge um tema, minha cabeça reverbera frases de efeito e lá tô eu me sentindo na geral do Beira Rio torcendo pelo Colorado. Ridículo? Claro que é. Ridículo e inconfessável. Mas sempre fui dada a revelações nada ortodoxas. No banho, em frente ao espelho, confessando pro travesseiro, num supermercado ou no meio de uma conversa bem chata, a gente pode pensar o que quiser: ganhar Grammy, Oscar, Nobel, dar entrevistas pra TV Sul ou pra David Latterman.
Já viajei o mundo e a experiência de Elizabeth Gilbert de “Comer, Amar, Rezar” vivi imaginariamente bem antes que ela largasse o noivo em Nova York.  Já fui Margaret Mead, Simone de Beauvoir, Ana Botafogo e Amélia. Também fui Ofélia com a sua cozinha maravilhosa. Nunca quis ser Gisele Bündchen, mas fui Julia Roberts ora optando por Erin Brockovich, ora por Anna Scott. Já salvei meu prédio de um assalto e de um incêndio. Já apareci no Jornal Nacional dançando “Incompatibilidade” no Wall Mart com os meninos. Depus em CPI. Ganhei eleições e fui bode expiatório.  Já fugi com um circo, de Soleil, é claro.  Casei com príncipes, venci doenças e bruxas terríveis.  Quem descobriu o pré-sal fui eu. Tive meu momento Grissom e fui a musa de Castle. Desvendei os mistérios de Madeleine McCann, Meredith Kercher e Elisa Samúdio. Fui Isabel Allende, Garcia Marques, Anna O. e Sigmund (ao mesmo tempo), Cleópatra, Helena, Coco Chanel e Glorinha Kalil. Fui decatleta, bati recordes, percorri todos os mares nadando. Hoje estou num momento Martha Medeiros.
Quanto mais improvável e impossível mais divertido fica este exercício criativo do qual a gente sai mais leve e sagaz.  Não tem a ver com grama mais verde do vizinho ou insatisfação com a própria vida. A bem da verdade eu não conseguiria viver como essas pessoas mais que quarenta minutos, tempo que demora minha ilusão.  Descobrindo, conhecendo, lendo, assistindo, imaginando pessoas e atividades incríveis, o incrível vai se apresentando a nós nas nossas próprias atitudes. Posso não ser Ofélia, mas meu strogonoff pode sair maravilhoso, posso não ser um ás no esporte, mas meu futebol com os garotos do prédio pode ser divertido, posso não ser Erin Brockovich, mas posso ajudar com afinco quem precisa. Claro que não sou Martha Medeiros, nem poderia escrever como ela, mas posso escrever (ninguém vai ler mesmo!). Estes pensamentos megalomaníacos servem pra gente rir da gente mesmo, admirar feitos admiráveis e rever nossas atitudes cotidianas que, dependendo de como a gente as realiza, são todas merecedoras e oscars e medalhas.
Se bem que beijos e sorrisos já valem o céu...

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