quarta-feira, 23 de novembro de 2011

O Ganso é Show de Bola

Ao contrário do que dei a entender este não é um post futebolístico.  Não foi proposital, eu juro. Há meses eu esperava sair em dvd o filme Kung Fu Panda 2. Assisti no cinema com o Murilo e adorei.

Eu, cinéfila, ou ex-cinéfila, perdi a paciência com outro tipo de filme que não seja animação.  Ficar duas horas sentada, prestando atenção em uma única coisa, me exaspera, sinto uma vontade louca de sair correndo feito Forrest Gump.
A gente desacostuma de ver cenas em sequência durante 5 minutos.
Filmes infantis são deliciosos, a gente escuta o mesmo diálogo 80 vezes e sempre descobre uma expressão nova, porque o tempo todo precisa levantar e ir pegar mais pipoca, trocar a fralda do caçula, limpar o nariz do mais velho, apartar algumas brigas, ir procurar o Mcqueen molhado, buscar suco de uva, atender ao telefone, trocar a capa da almofada que ficou roxa com o suco que caiu, procurar de novo o Mcqueen molhado, dissuadir os meninos da ideia de chupar pirulito, não conseguindo é necessário convencer os molequinhos melados a entrarem no banho, explicando pela milésima vez que o dvd e a televisão não podem entrar junto, travar uma batalha para tirar os Cielos da banheira (eles acreditam que podem nadar crawl nela), e voltar a tempo de ver o Sullivan descobrindo que a risada da Bu é extremamente poderosa. Assistir filme é uma aventura agitadíssima.
Mas o Kung Fu Panda 2 eu consegui ver com calma. Desde o primeiro filme, senti uma simpatia imensa pelo pai do Po, o Ganso. Sua simplicidade, sua ideia de rebeldia e audácia almejando trocar a fabricação de macarrão por tofu e o carinho com que cuidava do filho eram tocantes.
Ainda no primeiro filme, Po, um urso panda, escolhido para ser o grande guerreiro, sabe que tem algo para ser dito e espera que o pai lhe revele um grande segredo. O segredo óbvio era indizível. O Ganso não notava mais a diferença colossal que havia entre eles.
O segundo filme se desenrola sobre a questão aflitiva de muitos: De onde eu vim? Po ainda notava as diferenças gritantes com o pai e precisava buscar “a sua paz interior”. O indizível para o pai era inquietação para o filho.
Desde pequena me incomodava a fala de uma moça que trabalhava para minha avó. Ela afirmava, categórica, que mãe de verdade era quem sentia a dor do parto. Lembro-me de ter ouvido isso pela primeira vez com uns oito anos e discordei inteiramente. Discordava e achava muito, muito feio ela dizer aquilo. Feio e reducionista, mas essa palavra eu não conhecia àquela altura. Eu já conseguia formular a teoria de que "mãé é quem cria", já sabia que a maternidade não podia ser reduzida a um único evento, por mais traumático que ele fosse.
Na faculdade optei por um núcleo de estágio em Adoção. Fazia um link com psicologia jurídica e uma das minhas paixões sempre foi o mundo advocatício. Os termos, as pompas, a toga eram fascinantes para mim. Descobri juízes e promotores incríveis mas constatei, dolorosamente, que a justiça falha,  principalmente com quem mais precisa. No entanto deparei-me com histórias de maternidade/filiação emocionantes.
Em um determinado atendimento, um filho me contou da estranheza com que ouvia algumas pessoas dizendo que sua mãe não era mãe de verdade porque não lhe dera a luz. Quando ele me disse: “como dizer que ela não me deu a luz se me sinto iluminado por ela ter entrado na minha vida?...” meus olhos marejaram e fiquei com vergonha de me emocionar na frente de um dos meus primeiros pacientes. Achei que era falta de experiência e que depois de alguns anos conseguiria ouvir qualquer coisa sem transparecer consternação. Dez anos e quinhentos pacientes mais tarde a sensação ainda é a mesma: maravilhamento. Não é maravilhoso sentir luz incidindo sobre a gente, principalmente quando essa luz vem dos olhos de quem nos ama?
Gerar, parir, amamentar não faz de ninguém mais mãe. É lindo o slogan da Johnson & Johnson: quando nasce um bebê nasce também uma mãe. Lindo, mas não é bem assim. E o que acontece com mães que decidem doar seus filhos, são pessoas sem coração? E as mulheres que, por um incontrolável tsumani de hormônios, desenvolvem depressão pós-parto? Falharam em não ter, simplesmente, um aplicativo baixado? O fato é que ser mãe é divino, transcendental e difícil pra burro. Umas mulheres optam por não criar os filhos que geraram. Outras mulheres superlativizam os medos, angústias e inseguranças, que qualquer pessoa de juízo tem, quando se vêem segurando pela primeira vez um serzinho nos braços. Cada mulher desenvolve sua maternidade à sua própria maneira, copiando a mãe, tentando não repetir os absurdos da mãe, ou da sogra, lendo livros, revistas, assistindo Discovery Home & Healty, contratando uma super nanny... Cada mulher terá a sua maneira especial, por vezes genial, outras vezes equivocada de se colocar no mundo como mãe. Isso também é aprendido. Não é meramente biológico, não acontece imediatamente ao parto.
Lembro-me de uma cena de “Friends”, famosíssimo sitcom americano, na qual Chandler e Mônica decidem adotar uma criança e por um erro da agência suas fichas são trocadas e a mãe que estava disposta a entregar o filho a um médico e a uma reverenda, descobre que eles, além de não serem o que ela esperava, mentiram. A moça desiste de escolhê-los e Chandler tenta convencê-la dizendo que eles queriam muito um bebê e que ele saberia ser um bom pai quando chegasse a hora, mas que ela, a Mônica, já era mãe, uma ótima mãe, porém, sem um filho. Uma gestação a termo leva 40 semanas, há mães esperando seus filhos há anos. Não tem como dizer que essas mulheres não serão mães de verdade.
Nem sempre a relação entre mãe e filho é mágica, instantânea. Nem sempre é amorosa. No caso do Po, sua mãe biológica o amava muito e o deixou para salvar-lhe a vida. O Ganso aprendeu a amá-lo na medida em que o criava. E é assim mesmo. Quando a gente acha que já ama demais descobre que sempre pode amar mais um pouquinho. Parece impossível (porque já é desmedido), mas amor de mãe cresce... a cada cuidado, a cada afago, a cada carinho.
Foi assim com o Ganso e o Po. Trocando afeto puderam se reconhecer pelo que eram...
Um ganso e um urso panda.  Pai e filho.
Eu acho isso Super Show de Bola...

4 comentários:

  1. Querida Lavínia, estou...sem palavras. Me emocionei, senti seu texto, me identifiquei. Enquanto lia, acariciava o rostinho de Lucas que estava no meu colo e é um pequeno GRANDE protagonista de uma história assim...
    Obrigada por me fazer chegar até este texto!!
    Beijo grande, Juliana

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    1. Ju... Fico feliz que vc tenha gostado!! Muitos beijos pro seu Grande pequeno!!!
      Beijão...

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  2. E você ainda disse que pira na batatinha achando que sabe escrever??? Se você não sabe eu não sei quem sabe, para mim a leitura tem que ser assim envolvente, surpreendente e não apenas dominar termos técnicos. Também não tenho mais paciência para filmes adultos e nem tempo para vê-los. bjo grande

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    1. Francine, não escrevo bem não!!! Eu spou é cara de pau!!!rs...rs.. Mas se a minha cara de pau servir pra tocar "3" pesssoas ela valeu!!!
      Beijão!!!

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