segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Idiota, não!

Ir para terra da gente e rever pessoas queridas é um luxo. Mas luxo mesmo é conseguir horário para fazer unha, cabelo e maquiagem às sete da noite.  Quando há carinho genuíno, cabeleireira e manicure ficam felizes ao te ver aparecer sem avisar, depois um longo período de ausência, mesmo que isso signifique chegar mais tarde em casa.
Quando entrei ainda havia algumas pessoas no salão e me encantei com menininha que estava no colo de uma senhora que julguei ser sua avó. Depois dos abraços de saudade, fiz festa e logo a criança curiosa não tirava os olhos de mim. Quando eu olhava para ela, rapidamente charfundava no colo da avó. Praxe. Acredito que tenha sido assim que as crianças inventaram a brincadeira de esconde-esconde, porque não foi preciso ninguém ensinar. Da timidez e curiosidade naturais vai sendo engendrado um jogo de mostro/não mostro, te vejo/ não te vejo, sumo/apareço. Toda criança adora essa brincadeira, e você pode até falar o “Tutiii Achou”, mas a mão na carinha na hora do “Tuti” e o sorriso largado na hora do “Achou” não foram idéias suas não!!!
A cada vez que a criança mergulhava no colo da avó, ouvia uma bronca, daquelas bem bravas. Era uma pena ver a recusa ao convite à farra que a garotinha fazia. Parei de brincar, vai saber que dores doíam naquela senhora.
Sem que eu percebesse a menininha veio sentar-se ao meu lado, curiosa quis saber o que eu estava lendo e ficou admirando comigo os vestidos de um Red Capert qualquer. Do mesmo jeito sorrateiro com que veio se juntar a mim saiu do meu lado e os sons dos secadores foram afabados por um grito que fez  Scarlet  Johansson desejar voltar a ser babá.
“Marina, sua idiota, você está de meia, não pode correr desse jeito”.
Era a mãe que estava sentada terminando de cortar o cabelo. Fiquei com medo de que os ruídos do salão cessassem e que o meu coração acelerado e meus pensamentos revoltosos contra aquela mãe pudessem ser ouvidos.
Idiota? Aquela menina linda?
Assim como eu não sabia as dores da avó eu não poderia saber os motivos da ira daquela mãe. A menina já podia ter quebrado a cabeça em um tombo que quase matou a todos de susto e correr sem sapatos era imperiosamente proibidos naquela família.
Mas idiota? Não era preciso o uso daquela palavra, embora a entonação e a cara de ódio já fossem suficientes para que a menina entendesse que o que fazia era algo muito, muito, muito errado.
Crianças são capazes de te tirar do sério, como diz minha mãe. Se você nunca ficou muito bravo com uma criança é porque você não conviveu tempo suficiente com uma. Mas xingar, humilhar, bater não é ficar muito bravo. É ser cruel.
A gente sempre escuta, como se fosse desculpa que alguém perdeu a cabeça. Perder a cabeça é agir sem consciência dos seus atos e das conseqüências desses atos. Desculpem-me, mas perder a cabeça não é opção na criação de filhos. Você começa esbravejando, humilhando, xingando, batendo e acaba por jogar seu filho pela janela.
Acostumem-se. Eles não vão te obedecer o tempo todo. Às vezes eles simplesmente não escutam o que é dito. É extremamente irritante, mas acontece. Eles vão cismar em fazer o molho da salada (com azeite, vinagre e sal) usando como recipiente o chão da cozinha, numa sexta feira, assim que a faxineira sair da sua casa. Depois de desenrolarem todo o papel higiênico, considerarão que o melhor lugar para esconder toda a bagunça é no vaso.  Eles vão atacar o seu armário e quebrar todos os seus perfumes. Vão manchar sua blusa preferida, linda e cara, porque eles acharam que o balde cheio de panos de prato e água sanitária ficaria mais “colorido” com ela. Eles vão fazer você passar inúmeras vergonhas dizendo o indizível, aceitando o que eles nunca comem.  Você acaba de dizer: “Não se incomode, eles não gostam de banana”, e de repente lá estão eles acabando com o cacho todo da mulher. Ou o contrário: você diz que eles adoram bolo de coco e eles cospem tudo dizendo estar horrível, não se importando em fazer essa desfeita na frente da ilustre boleira.
O pai vai dar uma de pintor lixando a parede e eles vão imitá-lo usando a lixa na tela daquela tv fininha que vocês acabaram de comprar. Vão entrar, prontos para aquela festa que vocês já estão super atrasados, de novo na banheira, que você não teve tempo de esvaziar. Ou vão achar um batom na sua bolsa e decidir que a calça de veludo bege do irmão fica melhor com uns detalhes em vermelho.Vão transformar pipoca em neve, ou chuva, deixando seu tapete branquinho... branquinho...
Eles não vão sorrir, falar gracinhas quando vc quiser. Não vão cantar aquela musiquinha que  adoram cantar sempre que vc pedir. Eles vão brigar e responder pra você na frente de alguém que você respeita muito, gosta muito ou não gosta nada, fazendo parecer que eles não tem educação ou pior, que você foi incompetente nisso, ou até nisso. Vão bater ou apanhar do filho sua prima e você, sinceramente, vai ficar sem saber o que é pior. Eles não vão emprestar seus brinquedos. Vão chorar, dar um baita escândalo quando menos deveriam. Vão resolver brincar quando deveriam comer. Vão dormir quando poderiam aproveitar a festa. Vão querer ficar acordados quando você precisa descansar. E vão correr feito quenianos de meias.
Crianças são assim, exploram espaço, possibilidades testando tudo à sua volta, principalmente os pais. Testam nossa paciência, nossa resiliência, nossa autoridade, nossa capacidade de amá-los quando estamos prestes a ver se existe alguma cláusula de devolução. Querem ver até onde chega o que elas ainda não entendem como amor. E se não entendem o que é esse amor, como podem sabê-lo infinito?
Eles ainda não conseguem saber que seu dia foi “daqueles”, não fazem idéia do que é TPM, ou que a faxineira agora só volta na terça-feira. Não sabem o que é pressa e muito menos trânsito. Não conseguem entender porque de uma arte você ri e por outra você surta. Isso tudo eles vão aprendendo aos poucos e é imperativo que eles aprendam. Mas tudo ao seu tempo.
Por sorte os secadores continuaram ligados e ninguém pôde ouvir meu pensamento de “Idiota é você”. Eu nunca diria isso em voz alta, mas pensar eu podia. A menininha linda ficou amuada num canto com o queixinho tremendo. Meu coração doeu e fui ajudá-la a calçar os sapatos.  Depois de a mãe terminar de admirar seu cabelo novo, disse um “vamos” ríspido para a filha e ordenou rudemente que a avó pegasse “um papel, ou uma toalha, sei-lá” para limpar um pouco de suco que a garotinha tinha deixado cair.
Não interessa as amarguras que a vida lhe impõe, nada é desculpa para crueldade e grosseria principalmente com a sua mãe ou a sua filha. Pensei, quase com compaixão daquela mulher, como deveria ser triste, difícil, nocivo ser ela ou conviver com ela. Agradeci o fato de estarem de saída, torci para que a menininha linda, agora com sapatos cor de rosa, conseguisse manter a docilidade mesmo estando sob a tutela do terreno inóspito da mãe e fui lavar meus cabelos. Não resisti em abraçar mais uma vez minha cabeleireira, dessa vez não por saudade, mas em agradecimento a forma carinhosa com que sempre me tratou. Já eram mais de sete e meia da noite e os ares do salão de beleza pediam um pouco mais de gentileza.

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